Derretendo paredes de gelo

Há mais de 120 anos as organizações foram legalmente reconhecidas como pessoas (jurídicas). Claro que não fazia sentido tal noção. Com tal advento se tornaram “entidades naturais ou morais”, sujeitos ativos ou passivos de direito.

Como pôde um corpo jurídico conferir humanidade às grandes corporações como se tivesse poderes divinos?

Contexto da época: Burocratas do gelo

Voltando à época, imagine a cena:

A máxima precisão possível. Intensa otimização das ações. Minimizar ao máximo qualquer ambiguidade. Processos altamente racionais. Procedimentos cuidadosamente orquestrados. Sistemas hierárquicos de supervisão e subordinação. Organização em torno de uma unidade de comando.

No lugar de relacionamentos, enormes empresas operando inúmeras fábricas com muitos mil empregados. Não é surpresa que revoltas e brigas da classe proletariada proliferavam.

Não eram apenas lutas por direitos. Eram lutas contra a máquina. Eram gritos contra as pedras de gelo. As organizações eram tidas como burocratas do gelo.

O grito pegou fogo a partir das fusões e aquisições de 1895 a 1904, quando mais ou menos 157 negociações trouxeram o fim de 1800 corporações. As queixas e refutações se alastraram. Inúmeros livros foram publicados:

“The Heart of a Soulless Corporation” (1908),

“Corporations and Souls” (1912),

“United States Steel: A Corporation with a Soul” (1921),

“Puts Flesh and Blood into Soulless Corporation” (1921),

“Refuting the Old Idea of the Soulless Corporations” (1926),

“Humanizing a Soulless Corporation” (1937).

O lamento de 1909, de Edward Hall , então vice presidente da AT&T, fala muito do espírito da época: “O público não nos conhece… Nunca nos viu, nunca nos encontrou, não sabe onde moramos, quem somos, quais são nossas qualidades. Sabem apenas que somos uma corporação, e para as pessoas uma corporação é uma coisa.”

Contexto atual: mito do controle

Contexto dinâmico, competitivo. Clientes meticulosos. Empresas colaborativas e criativas. Equipes engajadas. Líderes e liderados unidos por um ideal. Produtos inovadores.

SÓ QUE NÃO!

Muito já se mudou. Porém falta muito para essa ser a nova regra geral.

Nas palavras de Olins (1978), as empresas modernas implicitamente acreditam que podem controlar seu próprio destino. Compram constantemente das grandes consultorias de gestão todo tipo de técnica e ferramenta administrativa que entra em vigor. Acreditam que esses sistemas, quando suficientemente injetados na rotina das empresas, farão elas se comportarem de forma racional, eficiente, lógica e organizada.

Esse mito de que é desejável mas impossível controlar o futuro escancara claramente o porque empresas buscam se mostrar sem rugas, que tudo sabem, que tudo veem. Bancam super-heróis. Se mostram superpoderosas e não como realmente são, com suas forças, fraquezas, erros e acertos.

Estão ainda longe das pessoas (incluindo funcionários e clientes) vistas apenas através de figuras impessoais em um gráfico financeiro.

Falta humanidade!

Empresas com alma

Quem há mais ou menos 150 anos levantou bandeira a favor da pessoalidade dos negócios? Quem por essa razão ganhou imensa legitimidade social e moral? Eis que surgiram as lojas de departamento.

Elas cultivaram em sua origem e história maneiras e jeitos próprios. Cada uma tinha sua forma de ser e de se portar. Pareciam pessoas. Não ganhavam, como as corporações, o título de empresa sem alma. Pelo contrário, eram tidas quase como bens civis que uma cidade jamais poderia ficar sem.

John Wanamaker, por exemplo, fundou a Wanamaker, primeira loja de departamentos da Filadélfia, nos Estados Unidos. Ele amava arte e história. Sua loja era muito usada em apresentações de corais e orquestras e tida como galeria de arte. John perambulava constantemente por toda a loja, mantinha contato direto com os clientes. Além disso, ministrava aulas de história e organizava exposições sobre Napoleão, reis, as belezas do mundo, a revolução francesa. O ambiente da loja parecia se aproximar da moda francesa e do gosto europeu.

Já o espírito da Marshall Field parecia mais uma aristocracia. Field – seu fundador – era reservado, evitava o holofote. Detalhista ao máximo percorria toda a loja e fazia questão que cada atividade e contato com os clientes funcionasse como a precisão de um fino relógio. Sua presença discreta, educada, encantava as mulheres. O ambiente da loja tinha um ar de luxo e respeitabilidade.

Outras lojas como a Filene & CompanySiegal Cooper e Macy’s também projetavam um jeito próprio de ser e se portar através de arquitetura, mobília, estilo de mercadorias, políticas de cliente, comportamento, comunicação.

Dessa forma, tais empresas eram sentidas como pessoas. Cada uma tinha um jeito de ser único e peculiar. Expulsavam, portanto toda percepção relacionada às grandes corporações. Claro que tinham outras razões que contribuíam também para isso. As lojas na época não cresciam por fusões e aquisições, não exerciam monopólio, nem fabricavam produtos. E o negócio favorecia o contato humano e as relações pessoais no dia a dia.

As pessoas de volta em seu lugar

Sim, empresas são e devem ser pessoas. Por que não respirar e se comportar como tal? Ter um rosto como o de uma pessoa? Veias que carregam sua razão de existir?

É sendo pessoas que pessoas vão ao nosso encontro. Que nos chamam atenção, nos tocam, causam identificação. É assim com seu jeito de ser que nos cativam através de seu comportamento, de sua comunicação, ambiente e dos seus produtos e serviços.

No momento em que compreendem porque existem e essa razão é forte o suficiente para juntar pessoas, é quando a guarda abaixa, o gelo derrete, a segurança aumenta e os vínculos surgem.

Não são processos, sistemas e técnicas que tornam uma empresa atrativa apesar de serem extremamente importantes. São as crenças e valores que fazem juntar pessoas, que trazem o sentimento de fazer parte e uma sensação clara de direção. É assim que pessoas são celebradas, e é assim que se tornam únicas, amadas, admiradas, desejadas.

POR Equipe 2DA
EM 29/04/2021

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